Tudo começou quando decidiram que a velha garrafa térmica de plástico azul, com aquela tampa de rosca gasta e café que parecia asfalto derretido, não era digna de uma startup moderna. No lugar dela, instalaram uma máquina de espresso alemã que exige um treinamento de três dias e a leitura de um manual em PDF de quarenta páginas. Agora, para conseguir uma dose de cafeína que me mantenha funcional até o meio-dia, preciso de um aplicativo próprio e uma conexão bluetooth instável.
A gourmetização da nossa humilhação matinal
Não satisfeitos em exigir que eu cadastre minhas informações biométricas para ligar o aparelho, o sistema frequentemente decide que minha senha expirou bem na hora do pior bocejo do dia. O visor digital pisca um erro incompreensível em alemão enquanto três colegas de trabalho suspiram logo atrás de mim na fila, todos segurando canecas com frases irônicas que já perderam a graça há três semestres.
A verdade é que a tecnologia foi criada para nos poupar tempo, mas hoje gastamos metade do expediente provando para objetos inanimados que somos seres humanos de verdade. O café, que deveria ser um direito básico garantido pela constituição do trabalhador cansado, tornou-se o prêmio final de uma gincana cibernética.
O preço da nossa falsa modernidade
O resultado prático dessa sofisticação desnecessária é que agora bebemos um café morno, com gosto de ansiedade tecnológica e por um preço que daria para comprar um pequeno terreno no interior. Enquanto digito o código de segurança enviado para o meu celular só para liberar o vaporizador de leite, lembro com saudade da simplicidade do coador de pano que nunca me pediu atualização de termos de privacidade.
