O pesadelo burocrático do registro de biometria facial

A saga de tentar abrir a porta do próprio condomínio quando o seu rosto insiste em parecer cansado demais para o algoritmo.

BUROCRACIA

7/10/20262 min read

Há três semanas, a administração do condomínio decidiu que as chaves físicas eram uma ameaça à segurança nacional e implementou o reconhecimento facial na portaria. Desde então, entrar em casa após uma jornada de dez horas de trabalho tornou-se um teste psicológico humilhante, onde preciso convencer um leitor digital de que a criatura com olheiras profundas na tela sou eu.

A inteligência artificial odeia a sua cara

O problema dos engenheiros que programam esses sistemas é que eles assumem que todo mundo anda pela rua com a fisionomia radiante de quem acabou de tomar um suco verde detox. O sensor simplesmente se recusa a validar minha identidade quando estou carregando três sacolas de supermercado sob uma chuva fina e com o cenho franzido de quem acabou de lembrar do valor do IPVA.

Eu me vejo forçado a fazer malabarismos faciais, arregalando os olhos e sorrindo de forma maníaca para uma câmera de metal escovado às onze da noite, enquanto o vigia me observa pelo vidro com uma mistura de tédio e piedade.

A nostalgia do chaveiro de metal

A humanidade passou milênios aperfeiçoando o conceito da chave, um pedaço de metal simples que funciona sem bateria, sem Wi-Fi e sem julgar a sua aparência. Trocar essa tecnologia infalível por um espelho tecnológico que exige que você performe felicidade para conseguir deitar no próprio sofá é o ápice da nossa decadência urbana moderna.